Então há dias, assim, do nada, a C. escreveu-me um e-mail.
Que queria resolver as coisas. Que tinha saudades minhas.
Já a J. me tinha ligado em Novembro, mas não fui capaz de atender. Não estava em condições de lidar com a situação. Ainda.
Voltando à C.. Não fosse um pequeno pormenor no e-mail, ia direitinho para o lixo. Parecia um daqueles e-mails de virus, como se fosse de uma amiga que não vimos há muito. E de tanto que a gente se habitua a ignorar essas coisas, que até se esquece que um dia, it might just be true.
Fez quinta feira uma semana. Respondi-lhe que estava com muito trabalho, mas que depois lhe escrevia um e-mail em condições. E que estava feliz por receber notícias dela – e era verdade. Tudo verdade, que estava com muito trabalho e que estava feliz de “a ver”.
Levei quatro dias a digerir a situação. Quatro dias a evitar o momento em que tinha de voltar ao passado e reviver dolorosamente tudo o que tinha acontecido e que tinha levado à ruptura de uma amizade maior que 10 anos de vida.
Tinha-me custado muito aprender a viver sem elas. E eu, que era aquela que não telefonava, não aparecia, era a mais desligada. Não me orgulho disso, muito pelo contrário.
Mas estar sem elas de repente foi atroz. Eramos 3, e a C. ainda tinha a J. e vice-versa. Eu é que fiquei sozinha.
Não se apagam assim 10 anos de vida em conjunto, elas estavam e estão completamente impregnadas na minha memória. Mas como se passaram quase 3 anos desde a última vez que falei com elas, aprendi mais ou menos a não sofrer tanto com isso.
O que foi mau agora – na hora de voltar a encarar o problema. Mas lá para segunda feira de manhã, senti-me com coragem e durante mais de duas horas escrevi-lhe tudo o que pensava.
Que tinha ficado magoada por elas me terem abandonado quando eu mais precisava. Que fiquei de rastos por ver a leviandade com que a minha casa e o meu carro foram tratados por elas, quando era tudo o que eu tinha e emprestei com todas as boas intenções. Que fiquei triste quando finalmente, apos 1001 histórias contadas, apresentei a C. ao A. e ela se comportou como uma pessoa oca e fútil, e até hoje, o A. não reconhece na C. a pessoa que eu tantas vezes descrevi.
Mas não lhe disse que todos os que conheciam a C. a acharam diferente, insípida e fútil. Que não parecia sincera em quase nada, que parecia uma sombra que ficava a observar ao longe. Que incomodava. A minha amiga C.!!! A pessoa mais doce que conhecia! A mais amiga! A mais sincera!
Terminei dizendo que estava bem, feliz, que por aqui, estava tudo igual a antes. O mesmo marido, a mesma casa,o mesmo carro. Estou no mesmo lugar.
Mas já não sou a mesma pessoa. Que mais não seja, perdeu-se a intimidade.
De qualquer forma, acho que a C. estava à espera que eu deixasse passar sem uma conversa sincera. Sem lhe dizer tudo o que penso. Que fosse ficar simplesmente agradecida por ela ter “dado o braço a torcer”. E fico. E reconheço que foi um passo imporatante e sem dúvida bastante difícil.
Mas se é possível voltarmos a ser as amigas que eramos, preciso de deitar isto para a rua primeiro. Lavar muito bem lavadinha a alma, para poder recebê-la de braços abertos sem reservas.
Ou então…nada. Pois já faz quase uma semana e ela não respondeu.